terça-feira, 9 de agosto de 2011

“Tudo aqui é tão terno que é como se pisássemos no ar, e não em chão firme.”





“Na reverberação do sol, a planície parecia uma lagoa transparente,
desfeita em vapores por onde se transluzia um horizonte acidentado.
E mais além uma linha de montanhas.
E mais além ainda, a mais remota lonjura.”
- Juan Rulfo




Sol: o sol intenso como jamais o havia sentido. Ele abria os desvãos, eliminava as sombras, destacava todos os detalhes; os azulejos rachavam, trincando seus desenhos, os trincos das portas ardiam, as pedras do chão martirizavam os pés descalços, os muros refletiam seu calor, tudo parecia arder nas retinas. Ele desceu alguns degraus com bastante dificuldade. Praticamente fora obrigado a fazê-lo, a não ser que considerasse a alternativa de voltar pela linha de asfalto que o trouxera por mais de três horas e meia, entre palos verdes e saguaros, de escassos verdes e imensos cinzas, vulcões extintos, minas desativadas de cobre e parques nacionais (Altar). Três mulheres, de aspecto viril, irromperam saídas da construção, a pele com a cor do pão torrado, tomando água em pequenas garrafas. Despreocupadas, avisaram aos viajantes que a casa estava arrumada, conforme as ordens do señor... (pronunciaram um nome que ninguém compreendeu), alertaram também que havia um pequeno problema de falta de água durante o dia. Entretanto, dizem com um esboço de sorriso, não há motivo para preocupação, durante a noite a água volta em abundância.


A casa se revelou fresca. Para tanto bastou abrir as janelas, descortinando o mar, que saudou os viajantes com suas boas-vindas ventadas e rugidas desde sempre, e se revelou imenso, aberto, azul-escuro, verde e azul-celeste no juntar-se com o céu sem nuvens. Fazia lembrança do dia perdido em que alguém ou algo os separara. Olharam para a direita e para a esquerda, acompanharam a estreita e sinuosa faixa de areia que se alongava até onde a vista alcançava. Ela recebia o mar, suas ondas, o beliscar do brilho do sol, o remanso desfeito em dedos e espumas brancas, rastejantes e dóceis. Uma pequena cabana de sapé fazia sombra sobre o retângulo de areia, e tirava dela a sua utilidade. Um deles, apertando a vista, viu três picos brancos aparecendo na linha do horizonte e um triângulo solitário,,perdido entre reflexos. Nada além disso. A construção se debruçava alta, acima do quebra-mar, enfeitado com um enorme osso de baleia; para atingir a praia, havia uma interminável escarpa, escavada em irregulares e precários degraus de madeira.

Cada um dirigiu-se ao seu quarto. Ele não trouxera roupa alguma. Deitou-se um pouco. A mobília era constituía por uma confortável cama de casal, um armário com livros, escondidos no fundo de uma estante, e um aparelho de tevê. Nenhum quadro nas paredes. A única decoração era a cabeceira da cama: desenhada com motivos primitivos multicoloridos, lembrando as faces quebradas e quadradas desenhadas pelos astecas, o cenário dominado pelo sol, radiante e raiado. Escondido atrás de uma porta, o banheiro com seu piso revestido de uma fina camada de areia.


O homem e as três mulheres fugiram da cidade, da peste que a invadiu e os amedrontou, e ali encontraram refúgio, segurança, isolamento. Combinaram não fazer perguntas, apenas conversar, contar histórias, aquelas que sentissem necessidade de compartilhar, não para ouvir comentários ou receber conselhos (que valem exatamente aquilo que se recebe por eles), apenas como desabafo. Viveriam por algum tempo apenas o momento. O passado e a memória apareceriam apenas em forma de relato, o futuro não passaria de inúteis prognósticos e o presente, como um instante fugidio que se esvai no infinito passar do tempo.


As mulheres saíram para passear na praia. Ele se quedou naquele terraço panorâmico, não arriscaria descer as escadas. Percebeu que o mar avançava em sua direção, a praia se reduzindo a um fio. Olhou para o céu, distraído, e viu uma série de gaivotas voando de oeste para leste logo acima dele. Elas formavam grupos de três até cinco, e era como se passeassem distraídas. Logo, ele notou que outros pássaros, pelicanos, também faziam o mesmo percurso. Ficou ali distraído, até que um desses últimos mergulhou dentro do oceano, para logo depois sair. Pescavam os peixes trazidos pela maré. Escolheram a casa como ponto de referência. Mais tarde, ao caminhar o sol para o poente, as aves faziam a direção contrária, e a maré vazante ampliava a faixa de areia, mostrava as pedras escondidas, fazia surgir lagoas efêmeras onde as gaivotas pastavam. Uma deixava cair sua presa, que logo era apanhada por outra. Algumas assediavam uma ave carregada, na intenção de fazê-la soltar a presa. Quando conseguiam, seu esforço era em vão, outra que vinha logo atrás já a apanhara durante a queda. Peixes morriam nas lagoas agora secas e pantanosas, pelo efeito do sol, e serviam de prato feito. Formando outro círculo acima daquela movimentada e retilínea avenida de duas mãos, ora o falcão de rabo-vermelho, ora a águia pescadora (açor) espreitavam em voos circulares, aproximadamente a cinco metros de altura. Repentinos como um raio, esses rapaces se atiravam vertiginosos como pinos, perto da água colocam suas presas adiante, e agarravam suas presas, inapeláveis, colocando-as em paralelo ao seu corpo, diminuindo o atrito com o ar e desaparecendo. Ele descobriu o nome desses gaviões graças a um vendedor de pé-de-moleque, caiçara típico, que apareceu para oferecer sua mercadoria. Ele comprou três pacotes e recebeu a informação: “São aves cujas fêmeas são maiores que o macho, e mais  habilidosas na caça. Durante a época da procriação, os machos assumem a responsabilidade da pesca para a família, e a convivência dura cento e vinte dias, até os filhos ganharem autonomia”. Perguntou o nome daquele mar. “Mar Bermejo”, respondeu o vendedor.


Esperou até que elas voltassem. Deu-lhes o doce de presente e ajudou no preparo do almoço. Peixe e legumes. Os produtos estavam armazenados e a adega foi encontrada em algum lugar que ele ignorava. Frutas, vinho. Ficou encarregado de descamar e limpar o peixe. Depois de almoçar, resolveu cortar sua calça e vestir a camiseta de uma delas. Estava apenas com uma camisa de manga comprida, e que considerada inadequada para a ocasião: “Você parece doente com essa roupa toda”. Duas se recolheram aos quartos para uma sesta. “O sol cansa muito.”


A que restou se acercou dele, que estava sentado à sombra (a pele muito branca não suportaria nem cinco minutos de sol), lendo um dos livros encontrados, e foi pela primeira vez observada sem seu disfarce. Estava animada com a novidade da situação, com o isolamento, com a atmosfera leve que reinava por ali, e o passeio sob o sol a deixou com vontade de contar uma história que ouvira da mãe, ocorrida nos tempos em que “o dinossauro ainda estava lá”.


“A sua amiga solteirona, Níobe, cuja missão invariável é narrar sua história: a de como foi enganada pelos homens. Um em especial. Ela sempre trabalhou para ajudar em casa. E era no trabalho que pescava suas oportunidades. Uma delas, a que chegou mais perto de conseguir sua realização, aconteceu com o sobrinho do seu patrão. Num belo dia, apareceu por lá um rapaz com seus dezessete anos, paralítico, de muletas, gordinho, baixinho, cultivava costeletas parecidas com as do Barão do Rio Branco. Começou a trabalhar na sala ao lado, onde atendia e distribuía os telefonemas. Falante e risonho. A maneira dele se comportar fazia com que a maioria das pessoas se acostumasse com sua aparência; a maneira com que contava os casos engraçados fazia com que todos rissem; admiravam, ainda, a sua obstinação em conseguir tudo o que lhe era pedido. Ela, apesar de seis anos mais velha, arriscou suas chances e se aproximou dele, para ver no que dava. E deu. Após lidar com a aparência física dele e aceitá-la, ainda não sabia exatamente se ele era sexualmente ativo. Mesmo sem ter isso esclarecido, resolveu dar todas as chances para que ele se aproximasse. Nada. As coisas ocorriam em câmera-lenta, era como o andar dele, muito demorado. O rapaz, apesar dos sorrisos, parecia tímido. Até que um dia a chamou para jantar. Ela não estava acostumada a sair, tivera até então os seus casos, mas sempre interrompidos antes dessa fase. Tinha medo de cair em outra esparrela. Ela já fora levada na conversa por um espertalhão, perdera a virgindade. Depois disso, evitava comentários sobre sua vida amorosa. Esse episódio fora riscado de sua vida. Temerosa, mas confiante, aceitou. Ele era inofensivo. O jantar foi agradável, conversaram animados, beijaram-se na despedida. Depois de alguns dias, mais um convite, aceito de pronto. Daí por diante, ele investiu sofregamente, e encontrou uma resistência física extraordinária. Ela se cansava, exausta de afastar as mãos e fechar as coxas. Utilizou todas estratégias possíveis e imagináveis. Inútil. O tempo não existia para ele. O momento era sempre adequado. Passo a passo, ele venceu todas as barreiras com os mais variados, extravagantes e incansáveis gestos, sempre conseguindo dar um passo adiante. E outro. E outro, até o limite final. Ela, definitivamente, não dava e não daria, a não ser que ele prometesse viver com ela, casado, em uma ilha, isolados de tudo e de todos. Ela não conseguia mais sobreviver naquele lugar, na cidade; enfim, queria o homem apenas para si. Ele, a princípio, concordou com um movimento de cabeça, talvez para conseguir o que queria e empurrando a decisão lá para adiante. Primeiro, temos que fazer a nossa vida. ‘Viver do quê, de brisa? Amor e uma choupana?’ Ele, então, se tornou um voyeur. Diante da proibição dos toques mútuos, ele a fazia exibir-se. Como um diretor de cinema, fazia com que ela se entregasse aos seus olhos, como se a estivesse fotografando, ou dirigindo um filme. Ela confessou gostar disso. A intimidade aumentava rapidamente, e era cada vez mais difícil de conter. Ela foi promovida, ele foi promovido. Ambos passaram a controlar o faturamento e o caixa da empresa. Ele contava suas histórias tristes, de como era injustiçado, de como trabalhava tanto e ganhava tão pouco. ‘O mundo é injusto, mesmo. Só morando em uma ilha.’ Até que, um dia, ele pediu que ela emitisse um cheque sem a despesa correspondente. ‘Invente uma’, disse ele, ‘o dinheiro será usado para o nosso projeto comum.’ ‘Isso é um desfalque?’ ‘Que nada, isso é justiça!’ Ela inventou a despesa, o cheque foi assinado. Eles nunca mais falaram do assunto. Criou-se a rotina, e falar no assunto era doloroso e desnecessário; apenas apareciam os cheques, quando não eram pedidos, ela o lembrava disso. Faria tudo que pudesse para conquistá-lo, desde que não desse. Ficaram juntos durante cinco anos, nessa situação. Ela separou uns cheques para si, acabou comprando uma casa, levou sua mãe para morar com ela. Esse fato, casa própria, despertou nela uma certeza. Instintivamente, acedeu ao pedido dele. Cedeu. Fizeram uma festa no escritório mesmo, à noite, na volta do jantar. Ele abriu a porta, não acenderam as luzes, e transaram sobre o tapete da sala da Níobe. Durante o sexo, o patrão repentinamente apareceu, acompanhado da namorada, subiram as escadas, apanharam alguma coisa e saíram. Quando, afinal, ele gozou dentro dela.”

Folha de S.Paulo, domingo, 12 de setembro de 1965:
 “Quando uma mulher sentir em seu coração o desabrochar de um terno sentimento por um homem e compreender que o mesmo acontece com ele, espere. Não se precipite. Mesmo que o seu desejo de casar seja grande, não se comprometa, fale-lhe francamente e com serenidade, pois todo o homem fica feliz, quando finalmente encontra uma mulher que lhe fala sinceramente de seus sentimentos sem se agarrar a ele com unhas e dentes, aflita por arrastá-lo ao casamento. Uma mulher que deseja esperar para poder bem aquilatar o seu amor é coisa tão rara que até parecerá um milagre e isso o fará admirá-la e querê-la ainda mais.
Essa espera sem compromisso é excelente e necessária por um motivo especial. Se com o tempo os dois verificam grandes incompatibilidades que não surgiram nos primeiros arroubos, a mulher poderá deixar partir o namorado, sem ter o ar de que foi abandonada. E poderá então aceitar a corte de um terceiro, sem ser tachada de leviana. Quando falamos aqui em casamento falamos em casar bem e não em casar a qualquer custo, apenas para não ficar solteira.”



Terminado o relato, pipocou em sua mente a associação entre o namorado e o ouvinte, ambos com a mesma condição física. Sentiu-se muito mal, procurava por uma saída honrosa. Quando se ouviu: “Socorro, socorro! Fui atacada por um cacto!”.




6 comentários:

  1. Adorei :) Deliciosamente enlouquecido. E o título está perfeito. Perfeitíssimo para o conto. Beijoss

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  2. Brilhante, como sempre... Tal qual o "Sol no deserto". Que imagem!!! Paradisíaca!! My Gosh!!! O título é lindo, uma poesia.:)
    Parabéns!!! Muitos!! :)

    Um beijo, amigo e escritor talentoso. :)

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  3. Sexo é meio ou fim?
    Levitar onde há cactos é perigoso!

    Abraço

    Luiz Ramos

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  4. Já tinha saudades de te ler...
    Um conto que prende desde o princípio, como o sol a morder na nossa pele. O cenário detalhado, faz-nos participantes de tudo! A história da mulher "encalhada" (seria?) utilizada como isco...o "aviso" na Folha de São Paulo, surtiria efeito? A mulher não deve ser oferecida...casar só para não ficar solteira, não seria o ideal...
    Pois é! Será que os conselhos funcionam, quando tudo "pega fogo"???
    Adorei! Parabens e mil beijos
    Graça

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  5. "La caza humana no da senãles de acabar todavía. Obesesionados por este reducto fantasma que se halla, escapándose de las manos" "una pista en su rastreo y se desponíaa descargar el golpe final".
    Há um limite de espera a cada parágrafo-frase.
    Abre-se a janela e... Surpresa!
    Abraço.

    Abraço

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