quinta-feira, 25 de junho de 2009

Dança Ritual Urbana



Caboclinho, primeiro movimento

Ezequiel era assíduo em um bordel onde as meninas se vestiam de comissárias de bordo, o uniforme justo e moldado ao corpo era embalagem a vácuo e os homens enlouqueciam com os trajes, trejeitos ou rejeitos. Formidava um cliente cego, que exigia o conjunto da Alitália, para atingir o máximo de prazer. Corria o boato que ele possuía onze penes.
Dali veio a idéia: colocar rapazes trajados de comandantes para vender cortes de cambraia, tweed, lã e linho. Escolhia um determinado tipo de cliente. Estudava seu comportamento, fazendo as primeiras vendas. Selecionava tecidos baratos, adicionava uma história triste da vida do vendedor e vendia tecido e história, como se os tivesse trazido da última escala. As rotas: Milão - São Paulo, Berlim - Rio e Paris - São Paulo. Condoído pela história, vendo a oportunidade de fazer um bom negócio, o cliente ocupado, cobiça à solta, missão cumprida, venda feita. Explorar esse sentimento é muito lucrativo, e é fundamental ser um bom ator. Teatro do Comércio.

Depois passou a vender imóveis perdidos pela cidade. Conseguiu contato na prefeitura para obter informações sobre terrenos com dois proprietários pagando impostos. Comprava documentos de identidade de pessoas homônimas a um dos donos e, pronto: colocava à venda por um preço entre trinta e quarenta por cento abaixo do mercado. Choviam compradores. Revelava pessoas e criava propriedades.

Para os clientes das feiras da cidade, possuía artigos de menor valor e de muita qualidade. Tijolos com dinheiro, bilhetes de loteria, ou alianças. O tijolão era o fascínio e tinha a maior aceitação. Colocava uma nota de um dólar por cima, outra por baixo, e um maço de papéis cortados no meio. Tamanho e peso calculados. Pacote fechado, amarrado fazendo marca, desanimando a abertura.

Para venda do bilhete é indispensável o jornal do sorteio. Comprovava-se que o prêmio se extinguia naquele mesmo dia, coisa urgente, fácil e rápida. Não requer prática ou habilidade. Lógica pura.

A aliança era o produto predileto. Com o certificado de garantia feito em gráfica de confiança, mostrava-se a peça pesadíssima, de ferro, revestida com verniz dourado a prova de unha. Atingia sempre o melhor preço: cem reais (custo: dois). Nas feiras são contadas as melhores histórias, de amor, traição, morte, perseguição, cobiça e castigo. Maior a desgraça, maior o prêmio. Mediante um bom lucro, a história condói a todos que têm algum dinheiro no bolso e alguma necessidade imediata.

Montou uma equipe amiga e profissional ao longo do tempo. Todos atuando sob cerrada supervisão. Ele era muito detalhista. O requisito principal para o trabalho era o rosto. Ferramenta de trabalho, confiável, amistoso. Do resultado bruto, ele ficava com quarenta por cento e custeava todas as despesas. O vendedor ficava com quarenta por cento e vinte por cento eram destinados ao departamento jurídico.

Ezê pertencia a uma antiga tribo de judeus caraítas, da sua crença ancestral guardava no peito, apenas o horário de Jerusalém; estivesse onde estivesse aquele era o seu. A aversão pela idolatria o transformara num ateu. Não teve sorte com as mulheres; escolheu duas esposas. A primeira sentia orgasmos apenas quando escovava os dentes, independentemente do tamanho da escova. Era um mistério. A outra, pela força do pensamento e durante o dia. À noite, estava cansada demais para tentar pela via tradicional. Diante do duplo fracasso, resolveu viver só. Recolhia as crianças doentes, em estado terminal, com até três anos de idade, abandonadas. Recolhia também os idosos no final da vida, retirados da rua. Acolhia também os cães famélicos, sarnentos.

Formou equipe para ajudá-lo e com ela consumia o seu rendimento. Foi a sua maneira de encontrar o amor. Tanto nas crianças, que amam sem qualquer condição, extravasando amor da maneira mais grácil que se pode imaginar, como nos idosos, ele as via como crianças engelhadas. Os vizinhos próximos criavam sempre problemas, alegando que os cães latiam e atraíam outros animais, também a algazarra que faziam as crianças e o mau cheiro dos velhos, cães e talvez dele mesmo.

(continua...)

7 comentários:

  1. Ética, moral, bons costumes.
    Seus textos nos prendem a atenção e criam expectativas pela continuação.
    Abraços
    Luiz Ramos

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  2. Passando para informar que indiquei o seu blog para receber o Prêmio “Este blog é pura luz”.
    Receba o prêmio em : Biblioteca Virtual

    Parabéns!!! beijos!
    Tania

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  3. Há provas de que nada escapa à contabilização das emoções. Não à-toa é cada vez mais proeminente a competência emocional, seja na vida pessoal ou no comércio. Tudo é vendável(?). Creio que nem tudo. Grata pelo momento Djabal. Beijos

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  4. Uma dança com os mais variados e eróticos ritmos. rs Muito interessante, arrojado escritor.rs
    Voltarei, com certeza.

    Um beijo

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  5. Ah, o amor, quanta confusão! Crianças e idosos amam graciosamente porque dependem do outro, mas quem está entre uma faixa etária e outra, certamente não ama "sem qualquer condição".
    Beijo, querido escritor! Belo texto.

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